LEPTOSPIROSE
ASPECTOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS
Doença infecciosa febril de início abrupto, que pode variar desde um processo inaparente até formas graves, com alta letalidade. A forma anictérica acomete 90% a 95% dos casos e, quando leve, é freqüentemente rotulada como “síndrome gripal”, “virose”, influenza ou dengue. Seu curso é caracteristicamente bifásico: se o quadro é moderado ou grave pode apresentar duas fases:

Fase septicêmica - Dura de 4 a 7 dias, com febre remitente, cefaléia, mialgias (principalmente nas panturrilhas, dorso e abdome), anorexia, náuseas e vômito. Pode haver hepatomegalia e, mais raramente, esplenomegalia, hemorragia digestiva, fotofobia, dor torácica, tosse seca ou com expectoração hemoptóica. Distúrbios neurológicos (confusão, delírio e alucinações) e sinais de irritação meníngea podem estar presentes; hemoptise franca pode ocorrer de forma súbita e levar a óbito por asfixia. Esta fase termina com redução gradual da febre, sem sudorese profusa.

Fase imune - Tem início com recrudescimento da febre, porém de menor intensidade pode durar de 1 a 3 semanas (4 a 30 dias), com cefaléia intensa, sinais de irritação meníngea, miocardite, hemorragia ocular, exantemas maculares, maculopapulares, urticariformes ou petéquias, entre outros sintomas. A forma ictérica ou ictero-hemorrágica (doença de Weil) evolui, além da icterícia de tom alaranjado, com insuficiência renal, fenômenos hemorrágicos e alterações hemodinâmicas. Com freqüência, exige cuidados intensivos (UTI). Suas taxas de letalidade variam entre 5% e 20%, podendo chegar a até 40%.

Sinonímia - Doença de Weil, síndrome de Weil, febre dos pântanos, tifo canino e outras. Desaconselha-se a utilização desses termos, pois são passíveis de causar confusão.

Agente etiológico - Bactéria helicoidal (espiroqueta) aeróbica obrigatória do gênero Leptospira. Das espécies patogênicas, a mais importante é a L. interrogans, com mais de 200 sorovares identificados. Cada um tem os seus hospedeiros preferenciais, mas cada espécie animal pode albergar um ou mais sorovares. Essas bactérias podem permanecer viáveis em solo úmido ou na água por semanas a meses, entretanto para manter o seu ciclo vital necessitam de um hospedeiro animal.

Reservatório - Os animais são os reservatórios essenciais de leptospiras; o principal é constituído pelos roedores sinantrópicos (ratos domésticos). O Rattus norvegicus (ratazana ou rato-de-esgoto) é o principal portador do sorovar Icterohaemorraghiae, um dos mais patogênicos para o homem. Reservatórios de menor importância: caninos, suínos, bovinos, eqüinos, ovinos e caprinos.

Modo de transmissão - A infecção humana resulta do contato direto da pele ou mucosa com a urina de animais infectados, principalmente roedores, diluída em coleções hídricas ou águas e lama de enchente. Raramente pelo contato direto com sangue, tecido, órgão ou urina de outros animais infectados.

Período de incubação - De 1 a 30 dias (em média, de 7 a 14 dias).

Período de transmissibilidade - Os animais infectados podem eliminar leptospiras pela urina durante meses, anos ou por toda a vida, segundo a espécie animal e o sorovar envolvido. A transmis-são inter-humana é rara e sem importância epidemiológica.

Complicações - Hemorragia digestiva e pulmonar maciça, pneumonia intersticial, insuficiência renal aguda, distúrbios do equilíbrio hidreletrolítico e ácido-básico, colapso cardiocirculatório, insuficiência cardíaca congestiva, falência de múltiplos órgãos e morte.

Diagnóstico - A suspeita clínica deve ser confirmada por métodos laboratoriais específicos. Na primeira semana de doença, devem ser realizadas tentativas de isolamento de leptospiras em cultura ou a detecção do DNA das mesmas pela reação da polimerase em cadeia (PCR). Os referidos exames fornecem resultados positivos, com maior freqüência, quando o material biológico utilizado é o sangue colhido nos primeiros dias da doença. Na fase imune da doença (a partir do quinto dia a contar do início dos sintomas), os métodos sorológicos são mais adequados. Devem ser utilizados os testes de Elisa-IgM e de aglutinação microscópica de leptospiras (MAT). Para esclarecimento etiológico de óbitos: testes histopatológicos convencionais e pesquisa de leptospiras por colorações especiais ou imunohistoquímica (cérebro, pulmão, rim, fígado, pâncreas, coração e músculo esquelético).

Diagnóstico diferencial

Forma anictérica - “Virose”, dengue, influenza, hantaviroses, arboviroses, apendicite aguda, sepse, febre tifóide, pneumonia, pielonefrite aguda, riquetsioses, toxoplasmose, meningites, doença de Chagas aguda e outras.
Forma ictérica - Sepse, hepatites virais, febre tifóide, febre amarela, malária grave, riquetsioses, colangite, colecistite aguda, coledocolitíase, síndrome hemolítico-urêmico grave, síndrome hepatorrenal, esteatose aguda da gravidez, doença de Chagas aguda e outras.