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LEISHMANIOSE VISCERAL (LV)
ASPECTOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS
Protozoose cujo espectro clínico pode variar desde manifestações clínicas discretas até as graves, que, se não tratadas, podem levar a óbito. Muitos infectados apresentam a forma inaparente ou assintomática da doença. As manifestações clínicas da Leishmaniose Visceral (LV) refletem o desequilíbrio entre a multiplica-ção dos parasitos nas células do sistema fagocítico mononuclear (SFM), a resposta imunitária do indivíduo e o processo inflamatório subjacente. Considerando a evolução clínica desta endemia, optou-se por sua divisão em períodos:

Período inicial - Caracteriza-se pelo início da sintomatologia, podendo variar para cada pacien-te, mas, na maioria dos casos, inclui febre com duração inferior a 4 semanas, palidez cutâneo-mucosa e hepatoesplenomegalia. Os exames sorológicos são invariavelmente reativos. O aspirado de medula óssea mostra presença de forma amastigota do parasito. Nos exames complementares, o hemograma revela anemia, geralmente pouco expressiva, com hemoglobina acima de 9g/dl. Na forma oligossintomática, os exames laboratoriais não se alteram, com exceção da hiperglobulinemia e aumento na velocidade de hemos-sedimentação. O aspirado de medula pode ou não mostrar a presença de Leishmania.

Período de estado - Caracteriza-se por febre irregular, associada ao emagrecimento progres-sivo, palidez cutâneo-mucosa e hepatoesplenomegalia. Apresenta quadro clínico arrastado, com mais de 2 meses de evolução e, muitas vezes, com comprometimento do estado geral. Os exames complementares estão alterados e, no exame sorológico, os títulos de anticorpos específicos antiLeishmania são elevados.

Período final - Febre contínua e comprometimento intenso do estado geral. Instala-se a desnutri-ção, edema dos membros inferiores, hemorragias, icterícia e ascite. Nesses pacientes, o óbito é determinado por infecções bacterianas e/ou sangramentos. Os exames complementares estão alterados e, no exame sorológico, os títulos de anticorpos específicos antiLeishmania são elevados.

Sinonímia - Calazar, febre dundun, doença do cachorro.

Agente etiológico - Protozoário do gênero Leishmania, espécie Leishmania chagasi. Apresenta duas formas: amastigota (intracelular em vertebrados) e promastigota (tubo digestivo dos vetores inverte-brados).

Reservatórios - Cão (Canis familiaris), marsupiais (Didelphis mucura) e a raposa (Cerdocion tolos), que agem como mantenedores do ciclo da doença. Questiona-se a possibilidade do homem também ser fonte de infecção.

Modo de transmissão - Pela picada da fêmea de insetos flebotomíneos das espécies de Lutzomyia longipalpis e L. cruzi, infectados. Não há transmissão pessoa a pessoa, nem animal a animal.

Período de incubação - Varia de 10 dias a 24 meses; em média, de 2 a 6 meses.

Período de transmissibilidade - O vetor poderá se infectar enquanto persistir o parasi-tismo na pele ou no sangue circulante dos animais reservatórios.

Complicações - As mais freqüentes são as otites, piodermites e afecções pleuropulmonares, gera-lmente precedidas de bronquites, traqueobronquites agudas, infecção urinária, complicações intestinais; hemorragias e anemia aguda, complicações que podem levar o paciente a óbito.

Diagnóstico - Clínico-epidemiológico e laboratorial. Esse último baseia-se em:

   • Exame sorológico - É o de detecção mais fácil para o diagnóstico da LV (imunofluorescência e Elisa, esse último não disponível na rede). Na imunofluorescência indireta, são considerados positivos os títulos a partir da diluição 1:80. Títulos variáveis podem persistir positivos mesmo após o tratamento.
   • Exame parasitológico - Realizado, preferencialmente, por aspirado de medula óssea, exigindo profissional treinado para sua prática.
   • Exames inespecíficos - São importantes devido às alterações que ocorrem nas células sangüíneas e no metabolismo das proteínas; orientam o processo de cura do paciente.

        - Hemograma: pode evidenciar uma pancitopenia: diminuição de hemáceas, leucopenia, com linfocitose relativa, e plaquetopenia. A anaeosinofilia é achado típico, não ocorrendo quando há associação com outras patologias, como a esquistossomose ou a estrongiloidíase.
        - Dosagem de proteínas: há forte inversão da relação albumina/globulina, com padrões tão acentuados quanto no mieloma múltiplo.

Diagnóstico diferencial - Muitas doenças podem ser confundidas com a LV, destacando-se a enterobacteriose de curso prolongado (associação de esquistossomose com salmonela ou outra entero-bactéria), cujas manifestações clínicas se superpõem, perfeitamente, ao quadro da Leishmaniose Visceral. Em muitas situações, esse diagnóstico diferencial só pode ser concluído por meio de provas laboratoriais, já que as áreas endêmicas se superpõem em grandes faixas do território brasileiro. Soma-se a essa doença outras patologias, tais como malária, brucelose, febre tifóide, esquistossomose hepatoesplênica, forma aguda da doença de Chagas, linfoma, mieloma múltiplo, anemia falciforme, etc.
LEISHMANIOSE VISCERAL (LV)
TRATAMENTO

A primeira escolha são os antimoniais pentavalentes (Antimoniato de N-metil-glucamina), na apresentação de 1ml=81mg de Sb+5, na dose de 20mg/Sb+5/kg/dia, IV ou IM, com limite máximo de 3 ampolas/dia, por, no mínimo, 20 e, no máximo, 40 dias consecutivos. Fazer acompanhamento clínico e com exames complementares para a detecção de possíveis manifestações de intoxicação (hemograma, U/C, TGO/TGP e ECG), bem como dos efeitos colaterais com notificação dos mesmos. O esoxicolato de Anfotericina B está indicado para gestantes e para os pacientes que apresentarem qualquer um dos fatores associados ao maior risco de óbito: idade <1 ano e >40 anos, infecção bacteriana, icterícia, fenômenos hemorrágicos, edema, sinais de toxemia, co-morbidades, diarréia e vômitos, recidiva ou reativação de LV, febre há mais de 60 dias, desnutrição grau III (marasmo e kwashiorkor) e pacientes com alterações laboratoriais. Na impossibili-dade do uso do Desoxicolato de Anfotericina B, utilizar o Antimoniato de N-metil Glucamina, na dose recomendada. A Anfotericina B Lipossomal está indicada em indivíduos com história de transplante renal, insuficiência renal estabelecida, toxicidade incontrolável ao Desoxicolato de Anfotericina B, rim único, sepse, diabetes mellitus, uso concomitante com outras drogas nefrotóxicas, cardiopatias em classe funcional III ou IV e refratariedade ao uso do Desoxicolato de Anfotericina B.
CONTRA-INDICAÇÕES
As drogas não devem ser administradas em portadores de cardiopatias, nefropatias, hepatopatias, doença de Chagas. Se necessário, o tratamento deve ser rigorosamente monitorado. Em gestantes, o Antimoniato de N-metil Glucamina não deve ser administrado, sendo recomendado a Anfotericina B.
CARACTERÍSTICAS EPIDEMIOLÓGICAS
A Leishmaniose Visceral é uma doença endêmica em 88 países da região tropical e subtropical. Zoonose, considerada inicialmente de transmissão silvestre, com características de ambientes rurais, atualmente está em expansão para as áreas periurbanas e urbanas. É um crescente problema de saúde pública no Brasil e encontra-se em franca expansão geográfica, estando distribuída em 20 unidades federadas. Têm sido registrados no país, aproximadamente, 3.000 casos/ano, com letalidade média de 8%.
LEISHMANIOSE VISCERAL (LV)
MEDIDAS PREVENTIVAS
Dirigidas ao homem - Estimular as medidas de proteção individual, tais como o uso de repelentes e de mosquiteiros de malha fina, bem como evitar se expor nos horários de atividade do vetor (crepúsculo e noite).

Dirigidas ao vetor - Saneamento Ambiental. Desencadear medidas simples para reduzir a proliferação do vetor, como limpeza urbana, eliminação de resíduos sólidos orgânicos e destino adequado dos mesmos, eliminação de fonte de umidade.

Dirigidas à população canina - Controle da população canina errante. Nas doações de animais, o exame sorológico deverá ser previamente realizado.
LEISHMANIOSE VISCERAL (LV)
MEDIDAS DE CONTROLE
Dirigidas aos casos humanos - Organização de serviços de saúde para atendimento precoce dos pacientes, visando diagnóstico, tratamento adequado e acompanhamento.

Dirigidas ao controle do vetor - O controle químico imediato está indicado para as áreas com registro do 1º caso autóctone de LV e em áreas de surto. Já nas áreas de transmissão moderada e intensa, o controle químico deverá ser programado, ou seja, para o momento em que se verifica o aumento da densidade vetorial. Nas áreas de transmissão esporádica, o controle químico não está indicado.

Dirigidas ao controle de reservatório canino - Eutanásia canina é recomen-dada a todos os animais sororreagentes, ou seja, títulos a partir de 1:40 e/ou com exame parasitológico positivo.

Dirigidas às atividades de educação em saúde - Essas atividades devem estar inseridas em todos os serviços e ações de controle da LV e requerem envolvimento efetivo das equipes multiprofissionais e multi-institucionais.


Recomendações - As recomendações para as atividades de vigilância e controle da LV são específicas a cada uma das áreas de transmissão. Consultar o Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, disponível em http://www.saude.gov.br/svs.